Carta a um estudante de Direito

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Vez ou outra, quando a agenda permite, procuro por obras estrangeiras que tratem de temas do meu cotidiano profissional. Não tanto para complementar minhas aulas ou livros, mas mais por curiosidade quanto à forma como o restante do mundo lida com problemas que enfrentamos aqui, em nosso país. Dias atrás, encontrei o título Just Violence, de Rachel Whal, que mudou minha visão sobre a violência praticada por agentes de segurança pública, algo também presente em nossa realidade. Deixo registrada minha recomendação!

No entanto, para nossa conversa de hoje, procurei entender como os estudantes de outros países enfrentam o Exame de Ordem. É claro, a prova não é igual em todos os lugares, mas o sentimento – de ódio, geralmente – compartilhado pelos examinandos globais é semelhante. Não acredita? Ao pesquisar em um grande site varejista por “Bar Exam”, o primeiro retorno comprova o que afirmo: “Passing The Bar Exam Is As Easy As Riding A Bike Except the bike is on fire, you’re on fire, everything is on fire, and you’re in hell”. Em bom português: passar no Exame de Ordem é tão fácil quanto andar de bicicleta, exceto que a bicicleta está em chamas, você está em chamas, tudo está em chamas e você está no inferno.

Infelizmente, não há versão digital do livro, mas em momento futuro, assim que adquiri-lo, farei a resenha dessa bela publicação. Prometo! Por enquanto, falarei de outra obra, intitulada “Letters to a Law Student” (Cartas a um Estudante de Direito), de Nicholas J. McBride, leitura tida como imprescindível por alunos de Direito britânicos e norte-americanos. O livro nada mais é do que um compêndio de dicas, em formato de cartas. Dentre as muitas trazidas em suas páginas, uma chamou minha atenção: últimos conselhos antes de uma prova.

 

De início, o autor pede cuidado ao administrar o tempo de prova, um problema também enfrentado no Exame de Ordem. Embora nos sejam oferecidas 5 horas para resolvê-la, há alguma distorção na relação espaço-tempo, fazendo com que o tempo disponível seja quase insuficiente. Em um simples cálculo, temos 300 minutos para a solução de 80 questões, o que nos dá 3,75 minutos por questão. No entanto, há algo a ser lembrado: alguns minutos são gastos com a distribuição da prova, a ida ao banheiro, a marcação do gabarito etc. No final das contas, com sorte, você terá 3 minutos para cada questão, o que é muito pouco.

Portanto, não desperdice tempo. Quando souber uma resposta, marque e elimine a questão. Uma nova leitura custará tempo e poderá fazer com que uma resposta certa seja trocada por uma errada. Além disso, nas questões em que a resposta exige decoreba de algo que você não saiba, chute qualquer coisa. Invista seu tempo naquelas em que, mesmo que não saiba o assunto, é possível descobrir a correta. Entenda:

  • Questões fáceis ou de assunto do seu domínio: não há motivo para investir muito tempo. Marque a correta e siga em frente.
  • Questões que exigem memorização e você não tem ideia da resposta: chute qualquer coisa. Em uma questão onde é pedido o prazo de um determinado recurso, por exemplo, não adianta quebrar cabeça caso não conheça a resposta. Ela não aparecerá em sua cabeça, de forma milagrosa.
  • Questões que podem ser respondidas com reflexão: nelas, invista mais tempo. Há questões em que, em um primeiro momento, você não terá ideia da resposta. No entanto, lembre-se: com sua vivência e experiência, talvez seja possível descobrir a resposta.

Outra dica é em relação à interpretação do que é lido, que adapto à nossa realidade. Ao fazer a leitura dos enunciados, lembre-se: só existe no mundo o que está naquela pequena redação. Se o texto diz que o céu é cor-de-rosa, aceite. Certa vez, um aluno perdeu o ponto de uma questão sobre erro de proibição (CP, art. 21) por entender que não havia como uma pessoa provar o desconhecimento da ilicitude do tráfico de drogas. Entretanto, o enunciado dizia, expressamente: o indivíduo desconhecia a ilicitude. Se pode provar ou não, não interessa, a não ser que a questão trate disso, da prova do crime, mas não era o caso.

Por fim, nunca pare de pensar. Novamente, adapto a dica ao nosso contexto. Em dado momento, você perceberá a queda em seu desempenho. Seu raciocínio ficará mais lento, as letras ficarão embaralhadas e sua paciência para a prova desaparecerá em segundos. Quando isso acontecer – e vai acontecer, asseguro -, você terá duas alternativas. A primeira, que causará sua reprovação: continue fazendo a prova, mesmo esgotado. A outra, única forma de manter o desempenho: peça ao fiscal para ir ao banheiro. Lave o rosto, beba água (não a do banheiro) e coma algo. Repita esse procedimento sempre que o esgotamento chegar, mas não desperdice sua prova.

Por Leonardo Castro

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