A saúde mental tem cor: é amarela

Não é difícil encontrar nomes, mesmo que em uma breve pesquisa no Google. Seja na literatura, no cinema, no esporte ou na arte, figuras conhecidas do público são protagonistas de inúmeras matérias que colocam a saúde mental como pauta. A conscientização ganha força no Setembro Amarelo, movimento de prevenção do suicídio criado em 2015 pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). A proposta da campanha é associar a cor ao Dia Mundial de Prevenção do Suicídio (10 de setembro). 

Assunto necessário e questão de segurança pública, o suicídio é um fenômeno complexo, que comunica dor e sofrimento insuportáveis de quem tenta tirar a própria vida. O ato geralmente é precidido por transtornos mentais não tratados e o silêncio de aproximadamente 60% das vítimas que não buscam ajuda. A população em geral demonstra um apoio à causa cada vez maior e, ao longo dos anos, também observamos a participação de escolas, universidades, empresas privadas e entidades do setor público nesta campanha crescer. Um exemplo dessa adesão transformadora da consciência social, como o próprio site do movimento apresenta, é a iluminação com a cor amarela de locais e monumentos facilmente reconhecíveis dos brasileiros, como o Cristo Redentor (RJ), o Congresso Nacional e o Palácio do Itamaraty (DF), o Estádio Beira Rio (RS) e o Elevador Lacerda (BA).

De acordo com a Associação Catarinense de Psiquiatria, a cor foi adotada por causa da história do jovem estadunidense Mike Emme, que cometeu suicídio enquanto dirigia seu carro amarelo em 1994. Como forma de ajudar pessoas que pudessem estar passando por momentos semelhantes e divulgar mensagens de apoio ao redor do mundo, amigos e familiares de Emme distribuíram, em seu funeral, cartões com fitas amarelas. Dale e Darlene Emme, pais de Mike, também fundaram o programa de prevenção do suicídio Yellow Ribbon, ou Fita Amarela, em português. A Organização Mundial da Saúde (OMS) corrobora a importância da conscientização ao divulgar que nove a cada dez mortes por essa causa poderiam ser evitadas. 

A primeira medida é mostrar às pessoas que seus sentimentos são mais comuns do que imaginam por meio de uma divulgação educativa e preventiva. A especialista em Cognição Humana e Terapia Cognitivo-Comportamental Carine Viegas ressalta que é preciso normalizar os sintomas dos transtornos mentais para que possamos quebrar o tabu social. “É conversar sobre isso. Falar sobre a doença mental, mostrar que ela é uma doença assim como a doença física. Ela deve ser olhada com atenção e ser tratada.” Segundo a psicóloga, a conscientização é uma mudança lenta, pois impacta em alterar hábitos culturais. “Não vai ser do dia para a noite, mas é conversando sobre isso que podemos modificar esse paradigma”, comenta. 

Perder o medo e desconstruir o preconceito são passos essenciais nos dias de hoje, uma vez que a depressão será a doença mais incapacitante do mundo até 2020, de acordo com a OMS. Outros dados preocupantes são trazidos pela pesquisa da psicóloga Karen Graner. Conforme o estudo, 30% dos estudantes brasileiros são afetados pela ansiedade. Em escala mundial, o número chega a 49,1%, ou seja, a cada dois universitários, um não está com a mente saudável.

A advogada e estudante Débora Voelz, de 23 anos, enfrentou uma situação difícil ainda na faculdade. No último semestre do curso de Direito, a uma semana da entrega do TCC e a um mês da primeira fase da prova da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Débora, que já vinha sentindo dores no estômago e outros sintomas que não conseguia reconhecer, teve o lado esquerdo do corpo paralisado. “Tanto meus braços quanto meu rosto formigavam… pensei que estava tendo um AVC”, relembra. Quando chegou ao hospital, foi atendida pelo neurologista. Após passar por uma bateria de exames, o médico questionou a paciente sobre seus hábitos e rotinas. “Ele me disse: ‘não é um AVC, mas transtorno de ansiedade, te recomendo procurar um tratamento’”, recorda. Depois do episódio, Débora buscou ajuda profissional, o que a fez entender melhor o que sente. “Conversar foi o que realmente me ajudou, com o psicólogo e minhas amigas”, afirma. 

O volume de leituras, trabalhos e provas na graduação, em muitas situações, causa uma sobrecarga na mente dos universitários. Soma-se a isso a pressão social e temos um possível gatilho para que pessoas desenvolvam transtornos psíquicos. Para Viegas, é comum haver dúvidas acerca das próprias capacidades dos estudantes. “Pensamentos de inferioridade e incompetência são frequentes. Isso gera tristeza e desinteresse pelas aulas e outras atividades corriqueiras. É uma cadeia viciosa, pois eles ficam cada vez mais depressivos”, explica. As consequências são diversas, mas a psicóloga destaca que o comportamento negativo gera falta de concentração e uma dificuldade no aprendizado, o que leva, em última instância, ao abandono do curso. “Ou, até mesmo, casos mais graves, como percebemos no aumento do número de suicídios”, complementa. 

Carol, que preferiu não ser identificada por seu nome completo, também é estudante de Direito e lida com ansiedade e depressão. “Tenho bastante crises de ansiedade com a questão dos prazos, porque, como estou no final do curso, todas as tarefas estão com datas de entregas próximas umas das outras. Isso me deixa estressada e serve como gatilho para as minhas crises”, desabafa. Ela ainda critica o ambiente acadêmico pela falta de preparo com alunos com transtornos psíquicos. “Às vezes, você não está bem e não quer ir à aula, mas se obriga a ir, mesmo ruim, porque se não for uma doença infectocontagiosa, um atestado não serve. Então, nos submetemos a não faltar. Isso é bem estressante e insensível.”

  Viegas ressalta a importância de empresas e entidades terem profissionais preparados e com conhecimento para ajudar a amenizar o sofrimento desses estudantes. “Por isso, trazer pessoas da área da saúde para falarem sobre o assunto é essencial na conscientização. Campanhas como o movimento do Setembro Amarelho servem justamente para trabalhar esse aprendizado”, acrescenta. Quanto a amigos e familiares, a psicóloga aponta que a abordagem mais adequada para oferecer ajuda é demonstrar preocupação e não desmerecer os sentimentos. “Pontuar para a pessoa que você está percebendo que ela está diferente. Dessa maneira, o indivíduo mesmo chega à conclusão de que outros enxergam essa mudança”, aconselha. Não adotar uma atitude impositiva, como forçá-la a desabafar, é preponderante para que haja uma conversa tranquila, amigável e transparente. “Coloque-se à disposição e reforçe o seu apoio. Além disso, estimule-a a procurar ajuda profissional”, orienta. 

Para identificar os sintomas, a especialista recomenda observarmos se há alguma alteração brusca no comportamento que seja prejudicial, como tristeza e apatia prolongadas, perda do interesse por atividades anteriormente prazerosas. Viegas ainda alerta para irregularidades no apetite e no sono da pessoa. “Falamos muito na questão da frequência e intensidade dos sintomas. Qualquer comportamento nessa linha é necessário passar por uma avaliação”, enfatiza. Quanto ao tratamento, estudos mostram que o melhor método é a combinação de psicoterapia com medicamentos. “A avaliação é imprescindível. Tanto psicólogos quanto psiquiatras estão habilitados para realizá-la no paciente. Procure um desses profissionais para que você possa obter a ajuda de que precisa.”

Vivemos em uma era em que a comunicação nunca foi tão fácil em virtude da globalização da internet e a popularização das redes sociais. Então, por que ainda notamos que o pensamento de amordaçar a saúde mental é ruidoso? Estimular o diálogo contribui para tirar o assunto da invisibilidade. Conscientizar a população dessas doenças é uma atitude que influencia diretamente na redução da consequência mais mortal do silêncio. Falar é a melhor solução! Como vai você?

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